o milagre

no princípio eras vibrações mudas, movimentos invisíveis, pequenos estremecimentos numa escuridão vasta e profunda. eras coisas subtis de mais para que mesmo tu conseguisses ter consciência de ti. ninguém sabia que ali te encontravas, lentamente a consumir e a desfazer, como quem cogita, como quem constrói. nem tu. eras mais uma coisa secreta das coisas secretas da natureza. e durante algum tempo foi assim.
a fome esteve sempre lá. foi a primeira coisa. no princípio havia a fome, muito antes de existires tu para a sentires. atravessava-te todo, na tua ínfima extensão, de ponta a ponta, e era o que te fabricava. no teu recanto negro, eras mais fome do que matéria, e ias-te fazendo. não podias permanecer escondido muito mais tempo. um dia, ias deixar de ser segredo para o mundo. e outro dia, muito mais tarde, deixar de ser segredo para ti próprio.

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vox & lux

onde as planícies acabavam era o limite da sala de estar, parede caiada, tinta a rachar. o apartamento estava pouco decorado porque eles não tinham trazido muitas coisas. não tinham livros nem discos, não tinham televisão, não tinham tapetes no chão nem cortinas nas janelas, e as paredes eram todas assim, caiadas, tinta a rachar.

a casa era pequena e eles pequenos dentro dela, ela pendurada na janela metade do dia de cigarro na mão, ele a passar esvoaçante pelas divisões a esmigalhar refeições em pé e a desfolhar os jornais do dia, numa espécie de fúria mal contida. lá fora a cidade densa, alta, de cores esbatidas e pessoas dissolvidas, escritórios de contabilistas, consultórios de dentistas, pequenos quiosques, grandes superfícies comerciais estéreis de luzes fluorescentes. mas eles só existiam dentro do apartamento, e para eles as planícies paravam na parede da sala de estar.
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no lugar da bruma

tinha caído o nevoeiro familiar enquanto o artur estivera no apartamento. parou no degrau da porta do prédio, a vestir o casaco preto, a levantar a gola, a passar uma mão exasperada pela cara, e depois lançou-se a andar pela noite pesada e branca.

ele pertencia na névoa quando mastigava as sombras dentro de si com esta fúria tépida e quando os candeeiros de rua a pintavam de amarelo. os ténues sons da cidade nocturna eram absorvidos pela bruma espessa como a rebentação das ondas, e o artur ouvia só os próprios passos, como se fossem os passos distantes de outra pessoa, ou dele próprio mas há muito tempo atrás. as fachadas das casas velhas apareciam e desapareciam do mundo.

meteu nervosamente as mãos nos bolsos do casaco e tentou não pensar, embora pensasse, como seria bom existir nalgum lugar onde amar não significasse digerir. nalgum lugar onde pertencer não fosse passageiro. num lugar fora do tempo, delimitado pela bruma, de fronteiras indistintas. um lugar onde só se ouvissem os passos distantes de desconhecidos, reconfortantes na sua estranheza.

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encurralados

a cafetaria da estação estava cheia com a multidão do costume para sexta-feira à tarde, mas os dois estavam agressivamente encostados ao balcão, a ocupar o espaço com os cotovelos angulares e os casacos pesados e as malas a distâncias desnecessárias. enquanto os restantes viajantes se afadigavam a beber os cafés e seguiam para o exterior enfumarado e cinzento da central de camionagem, eles demoravam-se com as coca-colas e iam falando baixo.

“ela disse que era mais fácil,” dizia o homem, de botas castanhas de marca de aventura e sobretudo preto desapertado. “disse que era só chegar, entrar e sair. que nem tinhas que passar lá a noite.”
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olivia

they came in through the mountain because the road had the more beautiful view, even though it was old and winding and forced them to drive at half the speed. olivia had her arms wrapped tightly around lottie’s waist, and because her helmet left her mouth and nose uncovered she could, when she dove into lottie’s back in sharper turns, smell her old brown leather jacket. the day had dawned as a thick fog came up through the trees, but now that it approached noon there were no clouds in the sky and they were glad there were such frequent patches of road that were graced by the fresh-scented shade of the pines.

olivia liked riding with lottie because the experience necessarily meant a relinquishing of control. lottie was confident and cautious, her spirit as much like olivia’s in these respects as she’d ever found. this left olivia’s mind to wander and her eyes to take in the old familiar sights while her arms remained clasped around lottie’s waist and her body leaned into the lay of the road. the pines hung over them as they drove down the edge of the cliffside, a dramatic drop only a few metres away, and below them hills, trees, boulders and villages where there were people. surely there were bookshelves in some of the tiny houses she could see, with books loved and books unfinished. there must be pictures hanging on some of the walls, there must be old children’s toys in some of the attics, there must be ancient arguments regularly ressuscitated and knives in drawers and proverbial skeletons in proverbial closets. but from atop the cliffside it was all picturesque and part of the landscape and simple. she thought, this is how i must appear.

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o meu conhecimento remoto

um dia de repente vou saber. sei que vem aí e que vai ser como uma cotovelada no estômago, que vai ser como uma sensação súbita e visceral a subir-me pela garganta acima. um dia vou estar num bar cheio de gente a uma mesa com os meus e os teus amigos e as minhas entranhas vão dar uma volta violenta e dolorosa e eu vou saber. e porque sei, vou despedir-me das pessoas no bar e pagar o que consumi e sair para a noite gelada. e porque sei, vou caminhar até casa a passo lento e triste e porque sei vou pegar nas tuas coisas, nos teus livros no meio dos meus nas prateleiras poeirentas, nos teus ténis na esquina do quarto-de-banho, nos teus discos, nas tuas roupas que lavei e passei. e porque sei vou empilhar tudo e porque sei vou acender um fósforo.

porque sei que morreste.

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